segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A influência de Star Wars


Alguns vídeos que mostram que mesmo tendo sido lançada 
long time ago...
Star Wars ainda influencia e diverte gerações.

1. Moosebutter e a canção "John Williams is the man"


2. Star Wars Weekend - Disney


3. O imperador em episódio de "Robot Chicken"


4. Comercial da Volkswagen


5. Uma Família da Pesada - Blue Harvest


6. Cena do filme "Space Balls"


Autoria: só se for autoria da compilação = O chinelo da minhoca
Vídeos incorporados do Youtube

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O amor no antigo Egito



            O faraó Akhenaton finalmente voltara de sua longa expedição de quatro anos pela Ásia. O povo foi devidamente orientado a recebê-lo nos portões do palácio. Os gritos forçados de “vida longa ao faraó” quase eram ofuscados pelos gritos de dor de vários súditos que se recusavam a saldá-lo e eram açoitados pelos militares. E o faraó sorria e acenava, crente que estava abafando.
            - Eu sou o cara – pensou.
            A sua amada esposa o aguardava na entrada do palácio. Kiya era jovem, mas já apresentava todas as características de uma legítima esposa de faraós: beleza estonteante e exótica, fascínio por ouro e pedras preciosas, vestimentas fashion, e uma vontade tremenda de dar uma porrada no marido vagabundo e mulherengo. Nessa altura dos acontecimentos, já havia quebrado a golpes de espada pelo menos trinta bustos do marido que estavam espalhados pelos templos de Tebas (naquela época já existia a tensão pré-menstrual). Sabia que ele não tinha viajado por motivos políticos, e sim para aprontar poucas e boas. Ela provavelmente não estaria tão nervosa se tivesse aproveitado a ausência do maridão para também se jogar na vida e curtir umas baladinhas com os escravos. E ela bem que queria fazer isso. Porém, por motivos que ela desconhecia, nenhum homem ousou tocá-la durante os quatro longos anos que se passaram. Nem sob ameaças de morte e desmembramentos. Sentia-se feia e mal-amada, e estava pronta para descontar sua frustração no faraó.
Akhenaton finalmente alcançou a entrada do palácio. Abraçou e beijou sua querida esposa, que quase o fulminava com seus olhos repletos de ódio. De mãos dadas, agradeceram as boas vindas dos súditos e ordenaram que os militares dispersassem a multidão para que eles pudessem descansar. Enquanto o chicote lambia o couro da turminha, os dois se retiraram para seus aposentos.
- Querida. Estou muito contente em vê-la. Sentiu saudades? – perguntou o faraó delicadamente.
- Não me chame de querida! – gritou a jovem rainha. – Pode ir explicando que negócio foi esse de sair de fininho no escuro da noite e demorar quatro anos pra voltar! 
- Lembra daquele meu amigo, o Juninho? Pois é. Ele me chamou pra dar uma passadinha na casa dele pra mostrar a sua nova tumba. Aí bebemos um pouco além da conta e acabamos reunindo a turma pra um jogo de senat. E conversa vai, conversa vem...
- O Juninho que mora na China? – gritou a mulher, enfurecida e já pegando uma adaga que estava escondida em seu vestido.
- Calma. Eu sei que eu demorei um pouco pra voltar, mas tudo pode ser explicado – disse o faraó, sentindo-se acuado.
- Explica então. Quero só ouvir a desculpa esfarrapada que vai dar dessa vez. O pneu da biga furou? Parou pra assistir ao Rally Dakar? Um maluco abriu o mar Vermelho? – bradou a esposa. 
- Resolvemos ir pescar no mar Morto – disse o faraó.
- Mas não existem peixes vivos no mar Morto – retrucou a mulher.
- E só agora você me diz isso? – gritou Akhenaton. – Foram três longos anos de espera e nenhuma beliscada!
E os dois governantes ficaram discutindo por algumas horas. Depois, deitaram-se juntos, pois a rainha havia enfrentado quatro anos de inverno, sem água e sem trigo, tendo sofrido as agruras da fome e da falta de grãos (na verdade, estamos falando é de sexo, e não de comida, mas o Egito também tem as suas metáforas).
- Oh, querido. Você não imagina a solidão que eu senti nesses últimos anos – choramingou a rainha.
- Eu posso imaginar – disse o faraó, lembrando-se da noite em que espalhou o boato de que sobre a rainha pairava uma maldição terrível lançada pelo deus Aton, que acometeria qualquer homem que ousasse profanar as virtudes daquela linda mulher. “As pernas perderão as forças, a coluna se partirá em dores horrendas e os órgãos genitais serão atacados por uma coceira fulminante, seguida de corrimento uretral esverdeado”.
O faraó era o único representante do deus Aton na terra, e a sua palavra era a lei. Todos o temiam e obedeciam de imediato. Todos, menos o seu empentelhado filho, Tutankamon, que insistia em desenhar nas paredes do palácio. Era um garoto impertinente e arruaceiro. E além de tudo era chantagista. Certa vez encontrou alguns hieróglifos pornográficos no banheiro do pai e ameaçou contar tudo para a mãe se não fosse levado para passear no rio Eufrates. E a mãe sofria nas mãos daquele pequeno malandro, que a importunava horas a fio, pedindo que ela lhe contasse histórias de ninar.
- Conta a história da esfinge – pedia o garoto, insistentemente, todas as noites. – E depois conta uma história de terror, com múmias e crocodilos.
- Quantas vezes vou ter que contar as mesmas histórias? – pensava a mãe, desolada e morrendo de sono.
- Cadê os meus gatos? Quero dormir com eles.
- O deus Aton te proibiu de dormir com os gatos.
- Por que eles são sagrados?
- Não. Porque você tem rinite.
- Canta uma música pra mim? – choramingava o moleque, fazendo beicinho.
- Tudo bem. “Dorme neném, que Anubis vem pegar...”
A chatice do garoto era tão grande que os pais não viam a hora dele crescer, se casar e sair do palácio. E então se lembraram que no Egito os casamentos arranjados eram comuns e nenhuma lei impedia que crianças se casassem. Correram então para encontrar uma esposa para o pequeno Tuti, como era chamado o menino. Após a realização de um rápido reality show, finalmente encontraram uma noiva. Seu nome era Ankhsenpaaton. Era uma adolescente de 14 anos, olhos verdes, que gostava de esportes, moda e sonhava em ser atriz. Infelizmente, Tuti não gostou muito da ideia.
- Ela é feia! – gritava.
E a pobre garota, escondida atrás das pilastras do salão, ouvia tudo com lágrimas nos olhos. Mas ela havia sido treinada para amar e respeitar o seu marido, por mais que ele a fizesse sofrer.
- Ela é baixinha! – continuava o pequeno príncipe.
 Ankhsenpaaton teve aulas de etiqueta e de obediência. Sabia todos os segredos para agradar o futuro faraó. Por mais que se sentisse ofendida, sabia que tudo se resolveria entre eles. Era tudo uma questão de tempo.
- Ela é velha! – berrava a criança.
E a futura rainha, por mais nervosa que estivesse, ainda se lembrava da regra número um: “o faraó tem sempre razão”.
- Ela é gorda! – insistia Tuti.
E a jovem noiva decidiu que aquela tinha sido o fim da picada, e jurava aos pés de Aton que só descansaria quando o maldito moleque estivesse morto, enfaixado e enterrado no deserto escaldante.

Autoria: O chinelo da minhoca
Desenho: internet

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

BURÓCRIA



            Burócria era o país mais burocrático do mundo. E a burocracia era tão grande que tornava tudo muito lento e difícil.
            Numa bela manhã, um criminoso que estava detido na penitenciária decidiu escapar. Ele preencheu um requerimento de fuga em três vias, pegou o carimbo de autorização, entrou na fila do despacho, despachou o requerimento e começou a cavar um túnel.
            Percebendo que o bandido estava tentando fugir, um dos guardas preencheu uma ficha de autorização em duas vias para poder apertar o botão do alarme. A ficha de autorização foi levada para a sala do subsecretário do diretor do presídio, que tirou uma fotocópia da ficha, carimbou com o carimbo “urgente” e a enviou para o secretário do diretor. O secretário recebeu a cópia da ficha, tirou outra cópia, carimbou com o carimbo “prioridade máxima” e a deixou sobre a mesa, pois o seu relógio deu o sinal de meio-dia. Ele saiu para almoçar.
            O prisioneiro já estava no meio do caminho para a liberdade. Outros presos queriam ajudar na escavação, mas a moça que trabalhava no guichê de autorização de fugas estava muito ocupada para atendê-los. Ela estava desenhando flores nas unhas com esmalte colorido.
            O secretário voltou do almoço e levou a cópia da ficha de autorização do alarme para a sala do diretor e a deixou sobre a mesa, pois o diretor estava no banheiro, enviando um fax para Boston.
          O criminoso terminou o seu túnel de fuga, preencheu um comprovante de conclusão de obras subterrâneas e saiu correndo em direção à cidade.
            O diretor do presídio saiu do banheiro, pegou a cópia da ficha, carimbou com o carimbo “deferido”, entregou para o secretário e voltou para o banheiro, pois ainda precisava despachar alguns toletes para o rio.
            O secretário enviou a ficha para o subsecretário, que despachou para o setor do alarme. O guarda recebeu a autorização, entregou um recibo para o subsecretário e apertou o botão do alarme.
            Os outros guardas do presídio, que estavam tomando um cafezinho, ouviram o alarme e se encaminharam lentamente (foram andando, pois no corredor havia um aviso de "proibido correr no corredor") para a sala de recados, onde estava afixado o memorando que explicava com detalhes a tentativa de fuga do prisioneiro. Então os guardas se dirigiram para o depósito de armas, protocolaram um aviso de retirada de material e pegaram suas espingardas. Vasculharam todos os arredores, mas o homem já estava longe quando o alarme tocou. O diretor do presídio foi obrigado a enviar um ofício para o chefe de polícia local, solicitando ajuda para a captura do fugitivo.
            O prisioneiro foragido teve uma ótima ideia. Entrou numa papelaria e roubou uma folha de cartolina branca e uma caneta. Escreveu em letras garrafais “CIRCULAR DE LEITURA OBRIGATÓRIA” e afixou a folha ao lado de um sinal de trânsito. Alguns minutos depois, um motorista parou seu carro no sinal e desceu para ler o que estava escrito na folha. O fugitivo aproveitou para entrar no carro e fugir.
            O chefe de polícia recebeu o ofício, carimbou com o carimbo “de acordo” e entregou a mensagem para o seu escrivão, que a enviou para o escrivão do delegado, que a entregou em mãos para o delegado. O delegado percebeu que era preciso agir com rapidez. Elaborou um memorando pedindo prioridade nas investigações e se reuniu com toda a força policial durante o cafezinho da tarde, exigindo que todos se empenhassem ao máximo para capturar o fugitivo.
            O fugitivo estava quase chegando à fronteira do país. Sabia que precisaria apresentar documentos, passaporte, carimbar o visto, fazer um requerimento para deixar o país, aguardar deferimento, confeccionar um novo cartão de vacinação, tomar uma vacina contra febre amarela, preencher uma guia de viagem, carimbar a guia, entre outras obrigações. Quando se lembrou que não estava carregando nenhum documento, resolveu desburocratizar geral e atravessou a fronteira com carro e tudo, quebrando as barreiras de proteção.
            A polícia recebeu um ofício que informava sobre a fuga internacional do prisioneiro. O ofício foi despachado para o escrivão do chefe de polícia. Após o intervalo da tarde, o escrivão enviou o ofício para o chefe de polícia, que agiu de imediato. Protocolou um pedido de ajuda internacional e prometeu entrar em contato com as forças policiais do país vizinho assim que terminasse o feriado prolongado. 

Autoria = O chinelo da minhoca
Ilustração = Tony (cartunista) - desenho retirado da internet

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LEMBRANDO DAS FOTOS DO INÍCIO DA DÉCADA DE 1980



ESTILO DAS FOTOS = Se você revirar no fundo do armário, provavelmente vai achar fotos de 1982 (no fundo de alguma caixa de sapatos, talvez daquelas fotos quadradinhas, de uma época em que algum executivo achou que fotos quadradinhas com cantos arrendondados seriam um sucesso), sendo que todas tem as mesmas cores, meio amareladas de péssima qualidade, como se o tempo estivesse nublado o tempo todo, o mesmo formato, os mesmos figurantes com roupas estranhas, cabelos cafonas e óculos escuros marrom. Legal como os nossos pais tinham uma péssima noção de enquadramento ou então gostavam de tirar fotos enquanto bêbados (exemplo: foto do cotovelo da sua mãe na praia). O pior de tudo é que provavelmente algumas fotos são em preto e branco (é isso mesmo = você tá ficando velho, xará!), em plenos anos 80, sabe-se lá o porquê.
ESTILO DOS TIOS =
- estilo 1 = sem camisa, meio careca, com correntinha de santo no pescoço;
- estilo 2 = barbudo também sem camisa ou com camisa de botão aberta pra mostrar o peito cabeludo;
- Restante dos tios que aparecem no fundo das fotos = pelo menos dois dos tios usa um óculos escuro marrom e quadradão e uns outros três estão fazendo chifrinho na cabeça dos sobrinhos (naquela época o bullying de tio para sobrinho era muito comum e metade das brincadeiras sem graça que já fizemos com outras pessoas aprendemos na infância com nossos tios).
ESTILO DA TIAS =
- as mais novas = cabelo armado estilo Jane Fonda ou aquela mulher do filme “Mulher nota mil”.
- as mais velhas = idem.
- Se ao ar livre ou reuniões informais = vestido largo e com cores primaveris;
- Se formal, pelo menos 4 estão com uma camisa que exibe um belo par de ombreiras (estilo futebol americano).
ESTILO DAS CRIANÇAS = em primeiro lugar deve-se salientar o número exagerado de crianças nas fotos, porque os nossos pais tinham muitos irmãos e todos resolveram ter filhos na mesma época – é uma primaiada que não acaba mais (em algumas fotos tem tanta criança que as maiores estão com as menores no colo). Provavelmente vai ter um tanto de criança em volta de uma mesa com bolo de aniversário, uma garrafa de vidro de coca-cola e talvez até uma lata de sorvete da Kibom (lata mesmo, de metal!!! E era uma merda de abrir aquela lata!!!).
- Pelo menos uma criança com agasalho da adidas ou camisa xadreza estilo festa junina.
- Pelo menos duas com short muito curto (adidas provavelmente = lembra que nessa época quase todo índio que aparecia na Globo ou na revista Manchete usava shortinho da Adidas? E esse shortinho era bem no estilo da seleção brasileira de 1982 e com as cores mais comuns da época – vermelho ou azul escuro e, de vez em quando, verde pra combinar com a camisa da seleção).
- Pelo menos uma criança com camiseta regata com estampa de desenho animado (Thundercats).
 - As meninas ou estão com cabelo curtinho, parecendo menino, ou de Maria Chiquinha.
ESTILO DOS CARROS – quase tudo fusca ou chevete ou Passat ou Belina ou opala ou gol ou bicicleta sem marcha. Pick-up? D10! Daquelas que soltavam uma fumaça danada de diesel que intoxicava qualquer pessoa num raio de 2 quilômetros.
ESTILO DAS FOTOS DE FORMATURA DE JARDIM DA INFÂNCIA – provavelmente você estava sem um dente da frente ou com tersol ou com piolho ou com algum machucado ou pelo menos com um cabelinho daqueles mais malditos (que o cabeleireiro tinha que ter vergonha de cobrar 300 cruzeiros pra fazer). 


O Chinelo da minhoca
Foto = TV Pirata

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

KWA-KIN-DO




- Jaime!
- O que foi?
- Ela tá olhando para nós e sorrindo.
- Quem?
- A moreninha de saia azul e bolsinha branca.
- Aquela ao lado do gigante de calça bege, camisa clara e revólver cinza, que também ta olhando pra nós, mas sem o mesmo sorriso?
- Essa mesmo.
- Então pára de olhar senão ele mata a gente, seu maluco!
- Ele e mais quantos?
- Oswaldo, você não tá legal. A sua lente deve estar com mau contato. O sujeito tem quase dois metros de altura.
- Quem luta Kwa-kin-do não tem medo.
- Kwaqui o quê?
- A arte milenar desenvolvida na Índia pelo mestre Abu-Tawel.
- Não importa de onde isso veio. Se o cara te der um tiro você já era!
- Nada disso, meu amigo. Nós kwaquinducas somos treinados para desviar de balas, entortar o cano da arma e nocautear o agressor usando apenas um golpe de cotovelo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

POLIDEZ E RESPEITO



- Bondoso senhor, o senhor cometeu uma infração e precisa ser punido.
- Mas o que eu fiz?
- Está parado em local proibido.
- O quê?
- Local proibido.
- Mas eu não estou de carro.
- As regras são válidas para veículos e pessoas.
- Mas isso é inaceitável! Um absurdo completo!
- Não desconte em mim, distinto senhor. Não fui eu quem criou as regras.
- E o quê o senhor vai fazer? Vai me multar?
- De forma alguma, senhor. A punição prevista em lei é uma advertência verbal. O senhor parou em local proibido! Eu estou te advertendo verbalmente! E que isso não se repita!
- Acho que não entendi direito. O senhor acaba de me passar um sermão?
- Apenas cumprindo meu dever, senhor.
- Estou atônito. Os policiais deste país cumprem o dever de maneira muito peculiar, devo dizer.
- Não sou policial, senhor. Sou apenas um cidadão de bem. Se eu fosse um policial não teria sido tão condescendente com o senhor.
- Céus! O que um policial faria?
- Coisas terríveis. O senhor ficaria surpreso. A polícia daqui é muito severa quando se trata de cumprir a lei.
- Mas o senhor acha que eu teria uma punição muito pesada se um oficial tivesse me surpreendido parado em local proibido?
- Esta foi a primeira vez que o senhor cometeu este delito?
- Acredito que sim.
- Provavelmente teria apontado o dedo indicador para o senhor.
- Só isso?
- Claro que não. Ele também olharia para o senhor com o mais gelado olhar de reprimenda. O senhor iria se sentir mal por pelo menos uns quinze minutos. Isso lhe ensinaria a lição.
- Digamos que eu fosse reincidente neste tipo de infração.
- Tremo só de pensar...
- O que o policial faria?
- Se fosse um desses policiais truculentos, que gostam de abusar do poder de autoridade que lhes foi outorgado, ou se fosse um dos bonzinhos, que acham que todos merecem uma segunda chance?
- Os dois.
- O primeiro levantaria a voz para o senhor e poderia até lhe puxar a orelha com força moderada. O segundo apenas ameaçaria levantar a voz.
- E depois?
- Depois o quê?
- O que ele faria depois de ameaçar levantar a voz?
- Não faria nada.
- E eu deveria ter medo disso?
- Claro que sim. Quem não teria?
- Mas os policiais não deveriam se ocupar com criminosos de verdade, como assaltantes e homicidas?
- De acordo com a nova política do governo, devemos investir nossos esforços no cidadão comum, a partir de eventos simples do cotidiano, com o objetivo de moldar exemplos de boa conduta dentro da sociedade.
- O que quero dizer é que os policiais deveriam ter outras prioridades.
- Com licença, senhores.
- Pois não?
- Podemos ajudar?
- Vou precisar dos relógios e das carteiras. Caso contrário, serei forçado a atirar.
- Meu bom Deus! Estamos sendo assaltados?
- Era exatamente sobre isso que eu estava falando. Este sim é um criminoso que merece a atenção das forças policiais. Armado e perigoso.
- Devo concordar com o senhor. Ele realmente parece determinado a provocar delitos moralmente inaceitáveis.
- Parado aí, meliante. O senhor está preso.
- É a polícia! Parece que estamos com sorte, meu senhor.
- Faça a bondade de soltar a arma e pedir desculpas aos transeuntes.
- Sim, senhor. Os senhores façam a bondade de aceitar minhas mais sinceras desculpas.
- Diga que está arrependido.
- Estou muito arrependido.
- E me entregue o revólver.
- Não é um revólver. Era só o meu dedo por debaixo da camisa.
- Muito bem então. Vamos analisar a sua conduta. Você é reincidente?
- Eu devo admitir que certa feita constrangi uma senhora a me entregar sua bolsa.
- Nesse caso, terei que apertar seu braço...
- Ai!
- ...dar um puxão de orelha com força moderada...
- Aaaa!
- ...e jogar spray de pimenta em seus olhos.
- Vai fazer isso agora?
- Parece que esqueci meu spray. Mas acho que você já entendeu a mensagem.
- Com certeza. Sinto-me reabilitado.
- Ótimo. Pode seguir então. E quanto aos senhores, vou deixar o telefone do psicólogo da delegacia, em caso de algum trauma emocional causado pelo assalto.
- O assalto não foi nada diante da cena dantesca que acabamos de testemunhar. O senhor oficial acredita ter sido necessária tamanha violência?
- Os senhores me desculpem se os obriguei a assistir a aplicação de uma pena tão severa. Esta vida de policial nos expõe a elevados níveis de estresse, o que acaba por nos deixar um pouco selvagens.
- Desculpem a intromissão, mas estou pasmo com o que acabei de presenciar. O senhor simplesmente deixou que o bandido fosse embora. Que justiça é essa? Ele merecia algo mais efetivo, como ser algemado e pelo menos encaminhado à delegacia.
- O senhor não é daqui, não é mesmo?
- Como o senhor policial adivinhou?
- O senhor está parado em local proibido.
- E não é a primeira vez. Já o adverti há alguns instantes.
- Reincidente, não é mesmo? Acho que terei que elevar o tom da minha voz.

Autoria: O chinelo da minhoca
Imagem: programa Monty Phyton

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Coleção fábulas modernas - volume 2


A SAGA DE ZEA MAYS

Ele nasceu numa terra estranha, insólita. Cresceu sem nenhuma orientação. Ninguém que pudesse lhe dar carinho, atenção. Desde cedo aprendeu a ser forte, pois de nada adiantava chorar. Seu lar era um local apertado, quente, escuro. Ele simplesmente não conseguia ver nada. Às vezes escutava ruídos ao seu redor, e um dia compreendeu que não estava sozinho naquele lugar sombrio. Havia outros como ele. Muitos outros. Mas não podiam sequer falar uns com os outros. Ninguém sabia falar. Existência silenciosa...
Um dia, acordou assustado. O chão estava tremendo. Sentiu que algo estava errado. Ouviu um barulho distante, que aos poucos foi aumentando até se tornar ensurdecedor. Ten-tou se mover, mas não conseguiu. De repente, sentiu um forte impacto, como se sua casa tivesse sido arrancada do chão e atirada em um despenhadeiro. E o barulho continuava, e o chão não parava de tremer. Após longos 20 minutos, abruptamente, tudo ficou silencioso. Mas desta vez o silêncio trazia medo e insegurança. Súbito, ele sentiu que sua casa se movia novamente. Sentiu novo impacto, dessa vez um pouco mais forte, e acabou desmaiando...