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terça-feira, 29 de julho de 2014

Carta aos jogadores da Alemanha




Caríssimos jogadores da Alemanha,

Quem vocês pensam que são?
Chegam no nosso país, na maior folga, querendo nos dar aulas de tudo?
Não precisamos de seus ensinamentos de futebol, tá bom?
Nossos jogadores tem o futebol no DNA.
Nosso futebol é vibrante, moleque, jovem, ousado, um pouco desorganizado, muitas vezes irritante e um tanto ultrapassado, e está indo muito bem, viu?
E daí que nossos jogadores choram mais do que jogam? O homem não pode mais ser sensível? Seus brutamontes preconceituosos! Aposto que ficam se segurando para não chorar quando toca o hino da Alemanha. Nosso time pelo menos tem coragem para chorar soluçantemente e bradar desabafos de auto-afirmação após cada vitória, após cada desfalque por contusão, após cada cartão amarelo, após cada escanteio perigoso, após esquecermos de tomar nossa fluoxetina, sempre que vemos um filhotinho de gato brincando com bolinhas de papel, sempre que avistamos uma bela borboleta voando majestosa sobre os lírios do campo... enfim, somos apenas emotivos. Parem de espalhar boatos dizendo que não temos preparo emocional!
Não me venham com esse seu técnico cheio de projetos e táticas e escalações baseadas na meritocracia.
Nosso técnico não fica dando entrevista em inglês e alemão só pra aparecer. Tampouco fica escalando os melhores jogadores. Oras, os piores também tem que ter chance, não é mesmo? Ele é muito mais legal que o técnico de vocês, apesar de ter menos cabelo e comer menos meleca.
Não venham nos ensinar humildade!
Já temos muita.
Nosso povo já é humilde o suficiente em tudo na vida. Não precisamos ser humildes no futebol. A gente é gozador mesmo, pô! A gente sabe rir da desgraça alheia.
Vocês não passam de uns bundões medrosos que não sabem fazer piada com a cara dos perdedores.
Não tem a nossa alegria, a nossa vibração.
Fossemos nós ganhando de 5 no primeiro tempo...
Seria uma gozação só!
E aplicaríamos chapéus e bolas debaixo das pernas pra humilhar vocês ainda mais e mostrar o nosso jeito campeão e evoluído de ser. E nossa torcida gritaria olé e vaiaria o seu timinho. E faríamos mais gols e faríamos pose diante das câmeras, chupando o dedão pra mostrar como foi fácil ganhar.
Vocês deram foi muita sorte!
E outra coisa. Não me venham com essa presidenta de vocês.
Sujeitinha aparecida.
Fingindo gostar de futebol, de democracia, do povo.
Gostar do povo, pois sim.
Onde já se viu?
Nossa governante sim nos representa.
Mostrando de forma carrancuda como é que se portam os líderes.
Podem levar com vocês essa imagem dissimulada que trouxeram.
Sabemos que vocês estão fingindo.
Fingindo ser mais educados, fingindo moderação nas palavras, fingindo respeito ao próximo, fingindo que sempre jogam seu lixo na lixeira...
Fingindo ter mais cultura que nós, brasileiros. Até parece.
Pois fiquem sabendo que Gil é nosso ministro da cultura (ou foi). E ele é cantor, viu? (ou foi).
E nossa cultura é mais bacana que a de vocês.
Nós temos carnaval!
Vai encarar?
Nós temos a Xuxa!
Entenderam o recado?
Nós temos o funk dos morros, galera!
Seus petulantes!
Esfregando boa educação na nossa cara...
Educação pra que, seus chatos?
Nosso ex-presidente não estudou.
E mesmo assim ajudou o Fidel a acabar com vocês na Guerra do Vietnã.
Seus manés!
Trazendo aquele velho gagá do Klose.
Só pra bater o recorde do nosso gordinho.
Onde já se viu jogador de 36 anos correndo daquele jeito (aposto que cheirou dopping antes do jogo).
Não me venham falar que ele tem boa saúde, boa preparação, que não fuma e nem bebe.
Papo furado! Nós sabemos que as coisa não funcionam assim.
Nossos jogadores quase não fumam, quase não bebem, e se aposentam com 32.
Idade justa, pois dali em diante é ladeira abaixo.
Só vocês mesmo pra ficarem trazendo essas experiências médicas, esse freak show de jogadores saudáveis.
Saúde?
Não precisamos de saúde.
Temos o nosso jeitinho brasileiro, que nos permite enganar as doenças e fugir da morte. Basta um bom advogado que escapamos de qualquer diagnóstico desfavorável ou doença terminal. A gente vai apresentando recursos, apelações e aqueles tais embargos divergentes até onde der.
E se a danada da morte aparecer, colocamos um laranja no nosso lugar.
A gente é malandro, rapaz!
Saúde a gente deixa pra vocês que são fracos.
E quer saber?
Cansamos de vocês e suas postadas no facebookson.
Não precisamos que vocês fiquem dando ambulâncias para nossos índios.
Eles já tem muitas coisas legais.
Já demos muitos presentes pra eles, como espelhos, shortinhos da Adidas estilo seleção de 82, terras abundantes em locais afastados da civilização, bolsa família indígena, entre outros regalos.
Estão querendo nos empurrar o jeito alemão de ser?
Arrogantes!
Saiam do nosso país e não voltem!
Seus folgados.
E levem aquele troféu com vocês, pois já temos cinco.
E levem também o resort que vocês fizeram na Bahia, construído no prazo, sem a necessidade de licitação de emergência e sem deixar os 30% de propina, seus escoteiros certinhos de uma figa.
E ficamos combinados: vocês não aparecem mais aqui pra nos humilhar com todas essas coisas, e prometemos que não iremos até a Alemanha humilhar vocês com... com... nossa alegria!


Autoria: O chinelo da minhoca
Foto: retirada da internet = http://www.faroldenoticias.com.br/


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Brasil que não aprende.

Outro dia, assistindo à tevê, vi um programa que mostrava vários marmanjos sendo massacrados por crianças. Não. Não era um filme de terror. Também não era o jornal das oito. Era um programa que mostrava o quanto as crianças da quinta série sabiam mais que os adultos. E isso me deixou pensativo. Lembrei de já ter sido uma criança da quinta série. Eu realmente era muito esperto naquela época. Sabia tudo. Realmente tudo. Mas se esse conhecimento todo tinha realmente alguma utilidade, por que não me lembro de nada? Por que aqueles adultos não se lembram, já que também foram alunos da quinta série algum dia? O conhecimento adquirido na minha quinta série e nas séries subseqüentes foi muito importante para que eu passasse no vestibular, mas não ajudou muito depois disso. Agora que passou o desafio do vestibular, o que eu faço com as quelíceras e os pedipalpos dos aracnídeos? Com a auxina, a giberelina e a citocinina? Será que as zônulas de adesão, oclusão e os desmossomos poderão me ajudar algum dia? O que faço agora com os estudos de obras literárias que li e decorei para os exames? Será que o meu cabeleireiro vai puxar assunto sobre isso? Talvez o taxista me pergunte se eu gostei daquela frase do Guimarães Rosa ao invés de falar sobre o tempo. Como será que o número de Avogrado e a lei de Hess me farão entender a política do nosso país? Na certa, o Ancylostoma duodenale tem uma resposta para tudo isso. Ou será que devo perguntar para o Trypanosoma cruzi, ou para o seu vetor, o Triatoma infestans? Estariam as respostas nos movimentos orogenéticos, nos diastrofismos, nos intemperismos? A solução da violência e da miséria dependeriam do estudo detalhado do movimento ludita? Do Golpe do Termidor? Com quantas guerras de Canudos se faz uma Revolução Farroupilha? E na hora de pagar meu imposto de renda? Vou fazer uma equação de segundo grau? Descobrir a hipotenusa? O brasileiro só sabe multiplicar problemas e dividir dívidas. Os bandidos e políticos corruptos (que são praticamente sinônimos) subtraem as riquezas do país. Existe alguma soma? Claro. Pode pegar a calculadora e somar o imposto de renda com o IPVA e o IPTU. O resultado é uma vergonha. E a capital do Afeganistão? Alguém sabe? O adulto não quer saber da capital. Está é preocupado com o próprio capital. E como vamos cuidar de nossas finanças? Aprendendo na marra ou pagando alguém para nos orientar. Não aprendemos isso na escola. E deveríamos aprender. Deveríamos ter aulas de direito do consumidor, direitos humanos, desenvolvimento sustentável, culinária, política, economia, justiça. A escola deveria nos preparar para o vestibular e para a vida. A criança aprende com muita facilidade. E nós enchemos a cabecinha delas com cultura que será esquecida ou pouco utilizada. Que tal se ensinássemos melhor sobre sexo? Hoje em dia a criança vai aprender de qualquer jeito, pois o sexo está em toda a parte, seja na novela, nas ruas ou na internet. A escola poderia pelo menos ensinar de uma maneira mais construtiva do que ensinam as músicas de funk. Vamos ensiná-las a identificarem pessoas suspeitas, pedófilos, ladrões, para que possam se defender delas. Ao invés de melhorar o ensino, o que o governo faz? Muda as regras do português. Os ignorantes é que foram beneficiados, pois se antes escreviam errado por não saber, agora escrevem certo por continuar não sabendo. Vamos melhorar o ensino nas faculdades? Não. Vamos criar o sistema de cotas. Vamos melhorar o ensino na rede pública? Não. Vamos dar um colete à prova de balas para os professores e seja o que Deus quiser. 

Autoria: O chinelo da minhoca