terça-feira, 30 de abril de 2013

Quando os EUA entraram na guerra contra a Dengue...

Pôster apresentado no XXI CNACDCOADM (Congresso Norte Americano de Combate à Dengue, Caxumba e Outras Armas de Destruição em Massa), 2006:
Autoria: O chinelo da minhoca (contribuição da Kênia que deu a ideia original)
Imagem: Internet

terça-feira, 16 de abril de 2013

RODÍZIO



Eu estava andando pela rua. Já havia passado do meio dia e minha barriga implorava por comida. Ao dobrar uma esquina, me deparei com uma churrascaria. Meus olhos fitaram o anúncio “O melhor rodízio da cidade”. Rodízio! Sem pensar duas vezes, entrei no restaurante. Enquanto procurava uma mesa, comecei a reparar nas pessoas. Todas rindo, conversando, comendo e bebendo. Fiquei impressionado. Como é que podiam ser tão inocentes? Será que não percebiam o que estava acontecendo? Pobres criaturas. Não entendem o que é o rodízio. O verdadeiro rodízio... O rodízio, na verdade, é uma guerra! Uma batalha sangrenta que é travada entre os clientes e os funcionários da churrascaria! Os garçons são soldados sob o comando do gerente, que pode ser considerado o general. A estratégia do inimigo é bem simples: os soldados empurram carne atrás de carne, ao mesmo tempo em que oferecem bebidas insistentemente. O cliente incauto cai nessa armadilha gastronômica e se satisfaz rapidamente, contribuindo para o lucro do exército adversário. Isso sem contar os infelizes que levam mulheres e crianças para o rodízio. O inimigo não perdoa. E é exatamente por isso que eu digo que rodízio é coisa para macho! E o macho tem que ter a seguinte ideia na cabeça: só se entra em um rodízio quando você tem a certeza de que vencerá a batalha, ou seja, dará prejuízo ao estabelecimento. Eu sou o tipo de cara que segue essa máxima. Sentei-me na mesa mais próxima à cozinha. Assim poderia ficar de olho nas manobras inimigas. O gerente veio ao meu encontro e indagou se eu ia querer o rodízio. Ao ouvir minha resposta afirmativa, seus olhos brilharam perversamente e um sorriso cínico tomou conta de seus lábios. Miserável! Mal sabia ele que estava lidando com um profissional. Um veterano de grandes confrontos... Ele deu o comando e seus soldados vieram ao meu encontro. Com toda a minha experiência, sabia que deveria aceitar apenas as carnes nobres. Nada de exaurir minhas forças com carnes duras, de segunda. E o tiro inicial foi dado. Daí para frente foi uma mistura de alcatra, sal grosso, filet mignon, alho, picanha, sangue, suor e saliva. O inimigo atacava por todos os lados e eu me defendia corajosamente. E o tempo foi passando... Após algumas horas de conflito, o inimigo reuniu todos os homens e partiu para um ataque em massa. Esse seria devastador, não fosse o meu oportuno recuo para o toalete. Fiquei entrincheirado até recobrar a minha auto-confiança. Depois de uma breve digestão, saí e comecei o contra ataque. Fui impiedoso. Os soldados se desesperavam ao mesmo tempo em que o general ligava para o açougue e pedia mais munição. Já dava para sentir o bem temperado gostinho da vitória. Depois de alguns minutos, o exército inimigo se reuniu na cozinha. Com certeza estavam tentando achar uma saída. Mas não havia saída! O gerente veio até minha mesa e perguntou, com a voz trêmula, se eu estava sendo bem servido. Se estava satisfeito. Há! Era a rendição! O fato do gerente vir falar comigo significava que eles, após horas de tentativas frustradas, haviam chegado à conclusão que não tinha nada que eles pudessem fazer para controlar a minha fúria animal. Era o pedido de perdão. Como um bando de crianças assustadas, eles clamavam por minha partida. Estavam onde eu queria: em minhas mãos... Mas não iam se livrar de mim assim tão facilmente. Apesar de estar completamente empanturrado, eu resolvi que não deveria aceitar o armistício. Não ainda. Afinal de contas, eu queria que aquela carnificina servisse de exemplo para as gerações futuras. Um marco na história da sociedade carnívora! Um garoto saiu da cozinha carregando coraçõezinhos. Corações... Era isso! Eles seriam o símbolo da minha vitória. Minha sede de sangue seria saciada pelos corações dos inimigos! Que metáfora fantástica! Olhei para o garoto. Por um breve instante fiquei com pena dele. Era apenas mais uma vítima inocente desse mundo insano em que vivemos. Humanidade torturada ardia em meus olhos. Não! Percebi que estava me desviando do meu objetivo. Na guerra não existe glória para os fracos e emotivos. Chamei o rapaz. Nada. Fingiu que não me escutou. Chamei novamente, dessa vez com mais vigor. Ele não teve escolha. Aproximou-se de mim. Dava para ver o medo em seus olhos. Eu não hesitei. Olhei bem no fundo da amargurada alma daquele rapaz, apontei para o meu prato vazio e exclamei em tom de triunfo: Limpa o espeto! Ele obedeceu e voltou correndo para a cozinha, talvez com medo de ser a sobremesa. Devorei tudo e, por fim, pedi a conta. Minha missão havia sido completada com êxito. Na hora de pagar, o único sorriso cínico era o meu, pois o gerente não conseguia sorrir e soluçar de desespero ao mesmo tempo. Lancei um olhar frio para os garçons e fui em direção à porta em passos lentos e meio descoordenados, pois minhas pernas sentiam o peso da contenda. Dei uma última olhada para trás, me prevenindo de um eventual ataque pelas costas, e alcancei a saída. Dobrei a esquina e ainda pude ouvir um último soluço do gerente. 

Autoria: O chinelo da minhoca
Imagem: internet

sexta-feira, 29 de março de 2013

Campanhas educativas


1. Cuidados básicos evitam aborrecimentos futuros!!!


2. Cinto de segurança salva vidas (essa é séria e muito legal!)


3. Se beber, evite praticar nado borboleta na enxurrada!


O chinelo da minhoca
Vídeos retirados do Youtube

segunda-feira, 4 de março de 2013

O HERÓI E O REINO DE FENÍCIA



Após várias semanas de cavalgada, o herói finalmente encontrou o isolado reino de Fenícia. Era um reino muito distante e pouco conhecido. As histórias diziam que muitos heróis desapareceram ao buscar aventuras naquela região. Foram e nunca voltaram. O mistério do sumiço dos heróis servia apenas para atrair mais heróis, curiosos e sedentos por batalhas e atos de bravura.
            - Bom dia, cavaleiro – disse um homem de armadura que guardava o portão de entrada do reino.
            - Dia – respondeu o herói.
            - Quer entrar no reino? – perguntou o guarda.
            - Quero – respondeu novamente o herói.
            - Então aguarde um instante – disse o homem, dando as costas para o cavaleiro e entrando em um pequeno quarto ao lado do portão.
            O cavaleiro ficou aguardando o retorno do homem. O guarda voltou carregando uma prancheta e alguns papéis.
            - Deixe-me ver – falou o homem. – Qual o seu nome?
            - Sir Roderick, “o Bravo” – respondeu o cavaleiro.
            O homem fez algumas anotações na prancheta.
            - Planeja ficar muito tempo no reino? – continuou o guarda.
            - Não sei dizer ao certo – disse o herói. – O tempo que for preciso para esclarecer alguns fatos.
- Qual o motivo principal da sua viagem. Turismo ou trabalho?
- Pode colocar trabalho – disse o cavaleiro, já um pouco impaciente. – Essas perguntas são mesmo necessárias? Estou com um pouco de pressa.
            - Está trazendo algum animal silvestre ou planta? – persistiu o guarda, ignorando a pergunta do cavaleiro.
            - Estou trazendo apenas o meu cavalo, minha espada e minha vontade de partir ao meio uma pessoa que está começando a me irritar! – esbravejou o herói.
            - O senhor está me ameaçando? – questionou o guarda.
            - Talvez. Por quê? Algum problema? Vai encarar? – provocou o herói, já colocando a mão sobre a bainha da espada.
            - O senhor acaba de ganhar dez pontos – disse o homem, entregando uma moeda de ouro para o cavaleiro. – Pode entrar no reino agora.
            O herói não entendeu nada, mas nem quis perguntar. Estava cansado de tanta conversa e ansioso para entrar no reino. Enquanto aguardava a abertura dos portões, deu uma mordida na moeda para confirmar o seu valor. Os portões foram abertos e o cavaleiro finalmente entrou. Andou pouco mais que cinco metros e foi abordado por um grupo de soldados fortemente armados com arcos, flechas, espadas e tacapes de aço.
            - Quantos pontos o senhor ganhou? – perguntou o líder do grupo.
            - Dez – respondeu o herói, mostrando a moeda de ouro que agora estava com pequenas marcas produzidas pela dentada.
            - Prendam-no – o líder ordenou aos seus subordinados.
            O cavaleiro saltou do seu cavalo, desembainhou a espada e lutou ferozmente contra os soldados. Mas eles eram muitos. O herói foi rendido, amarrado e levado até o xerife.
            - Quem é este homem? – perguntou o xerife.
            - É um cavaleiro que acabou de chegar, senhor – respondeu o líder dos soldados.
- Ele ganhou quantos pontos no portão? – perguntou o xerife.
            - Dez pontos. 
            - Mordeu a moeda?
            - Com força.
            - E ele resistiu à prisão? – continuou o xerife.
            - Sim.
            O xerife se aproximou do destemido cavaleiro e o examinou com os olhos por alguns instantes.
            - Deixe-me esclarecer algumas coisas para o senhor – começou a dizer o xerife. – O reino de Fenícia é um lugar muito próspero. Todas as pessoas daqui são felizes, honestas e ricas. E toda esta harmonia só é possível porque nós fiscalizamos com muito rigor as pessoas que visitam o nosso reino. Assim, impedimos a entrada de certos elementos indesejáveis.
- Isso é uma afronta! – exclamou o valente cavaleiro. – Estão duvidando da minha integridade?
- Ainda estamos investigando. Mas até agora as coisas não estão nada boas para o senhor. Deixe-me revisar os fatos. Nosso porteiro é encarregado de fazer uma série de oitenta perguntas a todos os visitantes. A resposta das perguntas não importa. Apenas queremos saber se o visitante possui a virtude da paciência, qualidade muito apreciada em nosso reino. Quando alguém não tem paciência para responder a todas as perguntas, o porteiro entrega uma moeda de ouro ao visitante e lhe atribui uma pontuação de zero a dez, na escala de impaciência. Se receber nota dez, o visitante deverá ser guiado pelos guardas até o nosso centro de visitantes, onde será submetido a um questionário ainda maior. Isso lhe ensinará a ter mais paciência no futuro.
- Mas ninguém me guiou para lugar algum – defendeu-se o herói. – Seus guardas me atacaram sem motivo.
- Ainda não terminei a minha explanação – continuou o xerife. – Aqui em Fenícia nós admiramos as pessoas que não são gananciosas ou desconfiadas. E o senhor aceitou uma moeda de ouro sem ao menos questionar o motivo de ter recebido tão valioso presente. Isso demonstra que é uma pessoa gananciosa. E ainda mordeu a moeda para ver se era de ouro puro mesmo. Ou seja, também demonstrou ser uma pessoa desconfiada. Nossos guardas são orientados a prender de imediato as pessoas que são impacientes, gananciosas e desconfiadas. E os nossos presos são imediatamente matriculados nas melhores escolas de reabilitação, onde participarão de várias palestras e serão instruídos e orientados pelos melhores professores do reino.
- Ridículo! – protestou sir Roderick. – Suas conclusões sobre a personalidade das pessoas são muito superficiais e precipitadas. E eu me recuso a voltar para a escola.
- Mas o senhor não irá para a escola. Aqui em Fenícia nós repudiamos as ações violentas. E o senhor reagiu à prisão com violência.
- Apenas me defendi. Qual é o problema?
- Nossos cientistas acreditam que as pessoas impacientes, gananciosas, desconfiadas e violentas são as mais perigosas para o nosso reino, pois podem ser ladrões. E todos os ladrões devem ser trancafiados na masmorra. 
- Não sou ladrão! – berrou o cavaleiro. – Sou um herói!
- Oh! – exclamaram os soldados.
- Nesse caso, só resta uma coisa a fazer...
            O cavaleiro não sabia, mas no reino de Fenícia a palavra herói significava assassino. E os assassinos não poderiam ser trancafiados nas masmorras. O pobre cavaleiro foi atirado no fosso das feras, onde jaziam os restos mortais de todos os outros heróis. Vários soldados ficaram de prontidão ao lado do fosso, para a eventualidade do herói matar as feras e escapar. Em Fenícia, os homens que matam feras são mais perigosos que os assassinos, e devem ser queimados na fogueira.  

Autoria = O chinelo da minhoca
Foto = cena do filme "Monty Python and the Holy Grail"

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

SOBRE ESCOCESES E DUENDES




O velho escocês era muito conhecido naquela pequena cidade. Sua figura chamava a atenção. Apesar da idade avançada, era um homem forte e media quase dois metros de altura. Seus cabelos eram tão ruivos que lembravam um arbusto em chamas. Seus olhos azuis reluziam, por mais que as marcas da idade teimassem em tentar escondê-los entre as inúmeras rugas de seu rosto. Porém, a beleza não era exatamente o seu forte. Vivia explicando para os amigos que o rubor escarlate de suas bochechas e o nariz robusto e hipertrofiado eram a marca registrada de seu clã. O velho insistia em culpar um certo feiticeiro que, numa noite fria das ermas encostas das highlands, lançou uma maldição sobre seu tataravô, que à partir de então passou a carregar em sua feição a mais bruta das feiuras. E essa sina seria passada de geração em geração até que fosse desfeita por uma façanha heroica. Um ato de puro desprendimento e bravura. O dermatologista do velho insistia em dizer que não se tratava de maldição, e sim de uma doença chamada rosácea, cujo tratamento envolveria a suspensão das noites de bebedeira. O velho quase asfixiou o pobre médico, que mais tarde ficaria sabendo que na Escócia costumavam apedrejar bruxos, ingleses e dermatologistas defensores da abstinência alcoólica.
A bebida era tudo na vida daquele velho. Desde a mais tenra juventude aprendeu a tratar a cerveja e o uísque como membros da família e base da pirâmide alimentar. Os torneios de levantamento de caneco e esvaziamento de barril foram as suas principais fontes de renda por vários anos. Foi dono de alambiques, cultivou plantações de malte, gerenciou bares e, durante alguns meses em que visitou a Irlanda, trabalhou como degustador de coquetéis Molotov para o IRA.  Hoje, aposentado e morando no interior do Paraná, tudo que o interessava eram as noites de boemia, onde deleitava os presentes com seu bom humor e histórias de bravura do povo escocês.
Porém, certa vez, sonhou com uma fada que dizia conhecer a maneira de quebrar a maldição da família.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A influência de Star Wars


Alguns vídeos que mostram que mesmo tendo sido lançada 
long time ago...
Star Wars ainda influencia e diverte gerações.

1. Moosebutter e a canção "John Williams is the man"


2. Star Wars Weekend - Disney


3. O imperador em episódio de "Robot Chicken"


4. Comercial da Volkswagen


5. Uma Família da Pesada - Blue Harvest


6. Cena do filme "Space Balls"


Autoria: só se for autoria da compilação = O chinelo da minhoca
Vídeos incorporados do Youtube

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O amor no antigo Egito



            O faraó Akhenaton finalmente voltara de sua longa expedição de quatro anos pela Ásia. O povo foi devidamente orientado a recebê-lo nos portões do palácio. Os gritos forçados de “vida longa ao faraó” quase eram ofuscados pelos gritos de dor de vários súditos que se recusavam a saldá-lo e eram açoitados pelos militares. E o faraó sorria e acenava, crente que estava abafando.
            - Eu sou o cara – pensou.
            A sua amada esposa o aguardava na entrada do palácio. Kiya era jovem, mas já apresentava todas as características de uma legítima esposa de faraós: beleza estonteante e exótica, fascínio por ouro e pedras preciosas, vestimentas fashion, e uma vontade tremenda de dar uma porrada no marido vagabundo e mulherengo. Nessa altura dos acontecimentos, já havia quebrado a golpes de espada pelo menos trinta bustos do marido que estavam espalhados pelos templos de Tebas (naquela época já existia a tensão pré-menstrual). Sabia que ele não tinha viajado por motivos políticos, e sim para aprontar poucas e boas. Ela provavelmente não estaria tão nervosa se tivesse aproveitado a ausência do maridão para também se jogar na vida e curtir umas baladinhas com os escravos. E ela bem que queria fazer isso. Porém, por motivos que ela desconhecia, nenhum homem ousou tocá-la durante os quatro longos anos que se passaram. Nem sob ameaças de morte e desmembramentos. Sentia-se feia e mal-amada, e estava pronta para descontar sua frustração no faraó.
Akhenaton finalmente alcançou a entrada do palácio. Abraçou e beijou sua querida esposa, que quase o fulminava com seus olhos repletos de ódio. De mãos dadas, agradeceram as boas vindas dos súditos e ordenaram que os militares dispersassem a multidão para que eles pudessem descansar. Enquanto o chicote lambia o couro da turminha, os dois se retiraram para seus aposentos.
- Querida. Estou muito contente em vê-la. Sentiu saudades? – perguntou o faraó delicadamente.
- Não me chame de querida! – gritou a jovem rainha. – Pode ir explicando que negócio foi esse de sair de fininho no escuro da noite e demorar quatro anos pra voltar! 
- Lembra daquele meu amigo, o Juninho? Pois é. Ele me chamou pra dar uma passadinha na casa dele pra mostrar a sua nova tumba. Aí bebemos um pouco além da conta e acabamos reunindo a turma pra um jogo de senat. E conversa vai, conversa vem...
- O Juninho que mora na China? – gritou a mulher, enfurecida e já pegando uma adaga que estava escondida em seu vestido.
- Calma. Eu sei que eu demorei um pouco pra voltar, mas tudo pode ser explicado – disse o faraó, sentindo-se acuado.
- Explica então. Quero só ouvir a desculpa esfarrapada que vai dar dessa vez. O pneu da biga furou? Parou pra assistir ao Rally Dakar? Um maluco abriu o mar Vermelho? – bradou a esposa. 
- Resolvemos ir pescar no mar Morto – disse o faraó.
- Mas não existem peixes vivos no mar Morto – retrucou a mulher.
- E só agora você me diz isso? – gritou Akhenaton. – Foram três longos anos de espera e nenhuma beliscada!
E os dois governantes ficaram discutindo por algumas horas. Depois, deitaram-se juntos, pois a rainha havia enfrentado quatro anos de inverno, sem água e sem trigo, tendo sofrido as agruras da fome e da falta de grãos (na verdade, estamos falando é de sexo, e não de comida, mas o Egito também tem as suas metáforas).
- Oh, querido. Você não imagina a solidão que eu senti nesses últimos anos – choramingou a rainha.
- Eu posso imaginar – disse o faraó, lembrando-se da noite em que espalhou o boato de que sobre a rainha pairava uma maldição terrível lançada pelo deus Aton, que acometeria qualquer homem que ousasse profanar as virtudes daquela linda mulher. “As pernas perderão as forças, a coluna se partirá em dores horrendas e os órgãos genitais serão atacados por uma coceira fulminante, seguida de corrimento uretral esverdeado”.
O faraó era o único representante do deus Aton na terra, e a sua palavra era a lei. Todos o temiam e obedeciam de imediato. Todos, menos o seu empentelhado filho, Tutankamon, que insistia em desenhar nas paredes do palácio. Era um garoto impertinente e arruaceiro. E além de tudo era chantagista. Certa vez encontrou alguns hieróglifos pornográficos no banheiro do pai e ameaçou contar tudo para a mãe se não fosse levado para passear no rio Eufrates. E a mãe sofria nas mãos daquele pequeno malandro, que a importunava horas a fio, pedindo que ela lhe contasse histórias de ninar.
- Conta a história da esfinge – pedia o garoto, insistentemente, todas as noites. – E depois conta uma história de terror, com múmias e crocodilos.
- Quantas vezes vou ter que contar as mesmas histórias? – pensava a mãe, desolada e morrendo de sono.
- Cadê os meus gatos? Quero dormir com eles.
- O deus Aton te proibiu de dormir com os gatos.
- Por que eles são sagrados?
- Não. Porque você tem rinite.
- Canta uma música pra mim? – choramingava o moleque, fazendo beicinho.
- Tudo bem. “Dorme neném, que Anubis vem pegar...”
A chatice do garoto era tão grande que os pais não viam a hora dele crescer, se casar e sair do palácio. E então se lembraram que no Egito os casamentos arranjados eram comuns e nenhuma lei impedia que crianças se casassem. Correram então para encontrar uma esposa para o pequeno Tuti, como era chamado o menino. Após a realização de um rápido reality show, finalmente encontraram uma noiva. Seu nome era Ankhsenpaaton. Era uma adolescente de 14 anos, olhos verdes, que gostava de esportes, moda e sonhava em ser atriz. Infelizmente, Tuti não gostou muito da ideia.
- Ela é feia! – gritava.
E a pobre garota, escondida atrás das pilastras do salão, ouvia tudo com lágrimas nos olhos. Mas ela havia sido treinada para amar e respeitar o seu marido, por mais que ele a fizesse sofrer.
- Ela é baixinha! – continuava o pequeno príncipe.
 Ankhsenpaaton teve aulas de etiqueta e de obediência. Sabia todos os segredos para agradar o futuro faraó. Por mais que se sentisse ofendida, sabia que tudo se resolveria entre eles. Era tudo uma questão de tempo.
- Ela é velha! – berrava a criança.
E a futura rainha, por mais nervosa que estivesse, ainda se lembrava da regra número um: “o faraó tem sempre razão”.
- Ela é gorda! – insistia Tuti.
E a jovem noiva decidiu que aquela tinha sido o fim da picada, e jurava aos pés de Aton que só descansaria quando o maldito moleque estivesse morto, enfaixado e enterrado no deserto escaldante.

Autoria: O chinelo da minhoca
Desenho: internet

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

BURÓCRIA



            Burócria era o país mais burocrático do mundo. E a burocracia era tão grande que tornava tudo muito lento e difícil.
            Numa bela manhã, um criminoso que estava detido na penitenciária decidiu escapar. Ele preencheu um requerimento de fuga em três vias, pegou o carimbo de autorização, entrou na fila do despacho, despachou o requerimento e começou a cavar um túnel.
            Percebendo que o bandido estava tentando fugir, um dos guardas preencheu uma ficha de autorização em duas vias para poder apertar o botão do alarme. A ficha de autorização foi levada para a sala do subsecretário do diretor do presídio, que tirou uma fotocópia da ficha, carimbou com o carimbo “urgente” e a enviou para o secretário do diretor. O secretário recebeu a cópia da ficha, tirou outra cópia, carimbou com o carimbo “prioridade máxima” e a deixou sobre a mesa, pois o seu relógio deu o sinal de meio-dia. Ele saiu para almoçar.
            O prisioneiro já estava no meio do caminho para a liberdade. Outros presos queriam ajudar na escavação, mas a moça que trabalhava no guichê de autorização de fugas estava muito ocupada para atendê-los. Ela estava desenhando flores nas unhas com esmalte colorido.
            O secretário voltou do almoço e levou a cópia da ficha de autorização do alarme para a sala do diretor e a deixou sobre a mesa, pois o diretor estava no banheiro, enviando um fax para Boston.
          O criminoso terminou o seu túnel de fuga, preencheu um comprovante de conclusão de obras subterrâneas e saiu correndo em direção à cidade.
            O diretor do presídio saiu do banheiro, pegou a cópia da ficha, carimbou com o carimbo “deferido”, entregou para o secretário e voltou para o banheiro, pois ainda precisava despachar alguns toletes para o rio.
            O secretário enviou a ficha para o subsecretário, que despachou para o setor do alarme. O guarda recebeu a autorização, entregou um recibo para o subsecretário e apertou o botão do alarme.
            Os outros guardas do presídio, que estavam tomando um cafezinho, ouviram o alarme e se encaminharam lentamente (foram andando, pois no corredor havia um aviso de "proibido correr no corredor") para a sala de recados, onde estava afixado o memorando que explicava com detalhes a tentativa de fuga do prisioneiro. Então os guardas se dirigiram para o depósito de armas, protocolaram um aviso de retirada de material e pegaram suas espingardas. Vasculharam todos os arredores, mas o homem já estava longe quando o alarme tocou. O diretor do presídio foi obrigado a enviar um ofício para o chefe de polícia local, solicitando ajuda para a captura do fugitivo.
            O prisioneiro foragido teve uma ótima ideia. Entrou numa papelaria e roubou uma folha de cartolina branca e uma caneta. Escreveu em letras garrafais “CIRCULAR DE LEITURA OBRIGATÓRIA” e afixou a folha ao lado de um sinal de trânsito. Alguns minutos depois, um motorista parou seu carro no sinal e desceu para ler o que estava escrito na folha. O fugitivo aproveitou para entrar no carro e fugir.
            O chefe de polícia recebeu o ofício, carimbou com o carimbo “de acordo” e entregou a mensagem para o seu escrivão, que a enviou para o escrivão do delegado, que a entregou em mãos para o delegado. O delegado percebeu que era preciso agir com rapidez. Elaborou um memorando pedindo prioridade nas investigações e se reuniu com toda a força policial durante o cafezinho da tarde, exigindo que todos se empenhassem ao máximo para capturar o fugitivo.
            O fugitivo estava quase chegando à fronteira do país. Sabia que precisaria apresentar documentos, passaporte, carimbar o visto, fazer um requerimento para deixar o país, aguardar deferimento, confeccionar um novo cartão de vacinação, tomar uma vacina contra febre amarela, preencher uma guia de viagem, carimbar a guia, entre outras obrigações. Quando se lembrou que não estava carregando nenhum documento, resolveu desburocratizar geral e atravessou a fronteira com carro e tudo, quebrando as barreiras de proteção.
            A polícia recebeu um ofício que informava sobre a fuga internacional do prisioneiro. O ofício foi despachado para o escrivão do chefe de polícia. Após o intervalo da tarde, o escrivão enviou o ofício para o chefe de polícia, que agiu de imediato. Protocolou um pedido de ajuda internacional e prometeu entrar em contato com as forças policiais do país vizinho assim que terminasse o feriado prolongado. 

Autoria = O chinelo da minhoca
Ilustração = Tony (cartunista) - desenho retirado da internet